terça-feira, 9 de agosto de 2016

SACSAYHUAMAN, A CASA DO SOL DOS INCAS - O SÍTIO E O PARQUE!

Sacsayhuaman (ou Sacsaywanam), nas proximidades de Cusco, é um lugar especial na história inca. É ali que se realizava a Inty Raimi (Festa do Sol), a principal festa daquele povo pré-colombiano, no solstício de inverno (21 de junho). É ali também que está a "cabeça do puma" (um dos três animais sagrados dos incas)- lembrando que o corpo do animal é a cidade de Cusco.

O esplêndido local é hoje um dos pontos turísticos mais visitados nos arredores de Cusco. Sacsayhuaman é um complemento perfeito: complementa a forma de puma da cidade de Cusco; e complementa a adoração ao sol juntamente com o templo mais famoso de Cusco, o Qoricancha. 


Pedro Sarmiento (1532-1592), historiador e cronista do século XVI, nomeou Tupac Inca Yupanqui (governou entre 1471 e 1493), sucessor de Pachacutec, como o construtor de Sacsayhuaman. O complicado nome desse sítio arqueológico quer dizer "testa franzida".

O lugar foi construído por milhares de homens, que foram se sucedendo ao longo de cinquenta anos. Uma força de trabalho imensa e pujante, que extraiu e carregou, em terrenos inclinados e sobre tronco de madeiras, enormes blocos de pedra calcária (algumas estimadas em mais de cem toneladas).




Curiosamente, algumas pedras foram modeladas - a que chama mais a atenção é a em forma de serpente, uma das divindades incas.

A forma de serpente é marcante neste conjunto de pedras de muitas toneladas.

 É um passeio realizado a partir de Cusco, junto com outros sítios arqueológicos, que fazem parte do "Parque Arqueológico de Sacsayhuaman" (são mais de 30 sítios arqueológicos nesse parque),  localizado 3 quilômetros ao norte da capital inca, sendo os principais, além do aqui relatado, os de Qenqo, Puka Pukara e Tambomachay.

Qenqo (Q´enqo, Kencco, Kenco) é uma palavra quechua que significa "labirinto".  Era um centro cerimonial inca dedicado à Pachamama (ou Mãe Terra), mas que tinha também funções agrárias e astronômicas. Destaque para o altar, no qual se fazia ritos fúnebres.

Altar usado pelos incas para rituais, em Q´enqo.

Puka Pukara, por sua vez, quer dizer "forte vermelho" em quechua. Foi um centro com funções religiosas, sociais e econômicas. Pela sua localização, foi também um ponto de vigilância e controle de trânsito. Tem também lugares para cultos e cerimônias.

Puka Pukara.
Tambomachay, por sua vez, quer dizer "lugar de descanso" na língua dos antepassados dos peruanos (quechua). É um lugar associado à água: tem canos que trazem águas limpas e cristalinas dos mananciais subterrâneas. E a água foi aproveitada também para provisão e irrigação da zona agrícola dos arredores. Para se chegar até as ruínas, há uma caminhada a partir da entrada do parque que leva cerca de cinco minutos.


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Tambomachay.

Uma dica para essas visitas e outras envolvendo Cusco, Parque Arqueológico de Sacsayhuaman e Vale Sagrado é comprar o boleto turístico, que custa mais ou menos 130 reais. Esse boleto dá direito a vários sítios arqueológicos no Parque de Sascsayhuaman e no Vale Sagrado, além de monumentos e alguns museus de Cusco.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

MACHU PICCHU, A ESPETACULAR CIDADE INCA!

A América do Sul tem lugares muito especiais. Mas um deles impressiona pela beleza cênica, pela conservação e pelo ambiente cultural envolvido: é Machu Picchu, a cidade perdida, sagrada e intocada dos incas, situada a noroeste de Cusco, no distrito de Machu Picchu, na Província de Urubamba, no Departamento de Cusco, no Peru. 

Machu Picchu, enevoada cidade perdida dos incas.

Ruínas bem preservadas de Machu Picchu.

Os visitantes na cidade perdida dos incas.

A espetacular cidade perdida dos incas em toda a sua beleza e esplendor.

Para se chegar até lá, duas opções: ir de trem (fomos a partir de Ollantaytambo, em uma viagem que durou cerca de uma hora e meia até o pueblo de Machu Picchu; há ainda saídas de Poroy, nas proximidades de Cusco e de Urubamba) ou por caminhadas, nas famosas trilhas (Inca Clássica, Inca Curta, Salcantay). De trem há várias opções, entre elas os das companhias Peru Rail (Vistadome ou Expedition),  Inca Rail e Orient Express (o luxuoso Hiran Bingham).

O trem da Inca Rail que leva à Machu Picchu, a partir da estação de Ollantaytambo.

É importante pernoitar no povoado "Macho Picchu" ou "Águas Calientes"  e, a partir dele, pegar logo cedo os ônibus que farão o percurso. Uma fila enorme espera o turista que, no entanto, é bem rápida para o tamanho - demora cerca de vinte minutos. O percurso do ônibus para Machu Picchu, cheio de curvas e de um natureza exuberante, sempre mirando o alto,  demora mais de vinte minutos.2.500 pessoas são aceitas por dia no parque (limite que exige que haja reserva em altíssimas temporadas, de junho a agosto).

Os pequenos ônibus que levam à Machu Picchu, a partir do povoado (pueblo).

Chegando em Machu Picchu, sítio arqueológico que fica a 2.350 metros de altura,  é impossível não se impressionar com tanta beleza e com tanta preservação. É inevitável  perguntar: como conseguiram os incas trazer tantas pedras tão gigantescas e colocá-las de uma maneira tão precisa e uniforme? 

O bom dessa história toda de Machu Picchu é que os conquistadores espanhóis (leia-se Pizarro e seus asseclas) não chegaram por ali. Ou seja, a cidade ficou intocada até ser mostrada ao mundo por Hiran Bingham (1875-1956) em 1911, um explorador que foi líder da  "Expedição Científica Peruana de Yale".  Esse intrépido homem encontrou um agricultor local que já havia visto as ruínas, chamado Melchor Arteaga. Um sol (sol é a moeda peruana) foi o valor pago por Bingham para Arteaga lhe mostrar o local, cheio de árvores e plantas sobre ruínas, que viria a ser a principal atração turística do Peru e um dos dez lugares mais famosos do mundo. Era o despertar de Machu Picchu para o mundo.

Bingham homenageado na entrada do parque por ocasião do cinquentenário de sua expedição.
Em 1912, Bingham voltou por lá (como não voltar, não é mesmo? Até para quem já viu Machu Picchu a vontade de voltar é enorme!).  Depois de limpar a densa vegetação que cobria o local e fazer muitas escavações,  os exploradores encontraram uma grande quantidade de objetos, tais como objetos metálicos em cobre, bronze e prata, peças de cerâmica, objetos de pedra, objetos de madeira, micro esculturas, objetos em construção, caroços de pêssego e osso de boi.  Foram também encontradas 107 tumbas com restos mortais de 173 indivíduos, com uma série de oferendas (adornos de prata, cobre, restos de lhamas, cachorros e porquinhos da índia ou cuys, entre outras).

Formidável e espetacular são adjetivos insuficientes para explicar o que é Machu Picchu. A cidade dos incas é muito mais que isso. É a síntese do esplendor de uma cultura caracterizada por avanços significativos na astronomia,  na agricultura e na engenharia. É o lugar com a ruína mais espetacular e sublime que existe na Terra - o "Templo do Sol".

Divergem os historiadores e exploradores acerca das funções da cidade de Machu Picchu.  A maioria dos estudiosos considera que foi uma importante cidade multifuncional inca (llaqta), com um núcleo mágico-religioso e lugar de observação solar, dadas as inúmeras construções para esse fim específico.

Como era Machu Picchu.  Foto: in "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Romero.

Machu Picchu foi construída durante o apogeu do império inca (século XV), com as obras iniciadas durante a gestão de Pachacutec. O lugar onde está construída a cidade é resultado de um colapso originado por duas falhas geológicas: a de "Machupicchu" e a de "Huayanapicchu".  Esses picos, aliás, tinham uma representatividade enorme para os incas: os ancestrais dos peruanos acreditavam que os dois picos formavam um casal divino, chamado "Yanatin", uma representação sociorreligiosa emergindo da terra. Ou seja, a geografia de Machu Picchu, para os incas, tinha caráter sacro. Tudo ali evocava representações divinas e símbolos de adoração, como o puma, a serpente e o condor.


Machu Picchu, o pico.
Huayna Picchu (a "Montanha Jovem"), o pico, ao fundo.

Dentre os muitos destaques da cidade, além do "Templo do Sol",  vale lembrar a Cabana do Guardião, a Intihuatana (pedra, uma espécie de relógio de sol), a Praça Sagrada, os outros Templos (o das Três Janelas e o do Condor), as Fontes, o Setor Real, as Rochas (Funerária e Sagrada) e o Bairro Comum.

A distribuição do espaço de Machu Picchu indica hoje, basicamente, dois setores: o urbano e o agrícola.

No setor urbano há a concentração da maioria das atrações do parque. 

"La Portada", ou o "Portal", é o primeiro acesso da cidade sagrada dos incas. 

La Portada.

O "Templo do Sol", belíssima ruína inca, foi um observatório astronômico no tempo inca. A janela apontada em direção ao oeste permite a observação do solstício de inverno, aquele que acontece no dia 21 de junho. A cada dia 21 de junho o primeiro raio de sol ingressa diretamente por esta janela e projeta a luz sobre a rocha. Através da mesma janela, na madrugada, durante os dias do solstício de inverno, é possível observar a constelação das plêiades (aglomerado de estrelas azuis, também chamadas de "sete estrelos" e "sete cabrinhas"). 

No mesmo complexo do Templo do Sol, mais abaixo, há ainda outro destaque: a "Tumba Real" (ou "Templo da Mãe Terra", ou ainda "Templo Pachamama"), com três degraus que representam os três animais sagrados dos incas: a cobra (mundo das trevas); o puma (que representa o presente); e o condor (representativo do mundo celestial). É, como diz o nome, uma reverência à "Pachamama", a mãe terra, tão adorada pelos incas.



O Templo do Sol, em Machu Picchu.
O abastecimento de água na cidade sagrada era feito por 16 fontes. São obras de pura maestria inca: todas as fontes estão conectadas por canais definitivos, desenhados com extraordinária precisão, para que a água fluisse com pouca filtração e de maneira controlada.

A Praça Sagrada, por sua vez, era um espaço onde se realizavam cerimônias especiais. Para o explorador Bingham, a Praça Sagrada é constituída do Templo Principal, da Sacristia, da Casa do Alto Sacerdote, do Templo da Três Janelas e da Intihuatana. Destaque para a Sacristia, que tem duas rochas ladeando a entrada, uma das quais com 32 ângulos.

Uma visão da Praça Sagrada de Machu Picchu.

A "Intihuatana" é uma pedra que indica precisamente as datas dos solstícios e equinócios, além de outros períodos astronômicos importantes. É um dos maiores símbolos de Machu Picchu.  O nome quer dizer "poste de amarrar o sol", já que os incas afirmavam que o sol ficava preso na rocha, durante o solstício de junho (dia do inverno, 21 de junho), o dia mais importante do ano para eles.

Intihuatana, em Machu Picchu.


A "Rocha Sagrada" imita a forma de uma montanha. Era usada pelos incas como altar, para reverenciar os "Apus" (deuses da montanha, da água e da fertilidade). Vale dizer que antropólogos consideram que a rocha espelha a "Pumasillo" (garra do puma), situada na cordilheira Vilcabamba. 

A imponente "Rocha Sagrada".

Dois outros templos ainda valem a visita em Machu Picchu: o do "Condor" e o das "Três Janelas". 

O "Templo do Condor" , segundo a maioria dos historiadores, era o local onde as múmias incas eram colocadas durante as cerimônias em homenagem ao condor, uma das divindades incas. 

Templo do Condor.
O "Templo das Três Janelas", por sua vez, era também dedicado à "Pachamama". Em 21 de junho, solstício de inverno, raios solares ingressam pelas três janelas, originando uma projeção de sombras simétricas. Arqueólogos encontraram debaixo das janelas grande quantidade de restos de cerâmicas decoradas. 


Outro ponto bastante interessante de Machu Picchu é a "Sala dos Espelhos Astronômicos" (ou "Los Morteros"). As pedras nesse local, espelhos d´água, talhadas em forma circular, tem quase o mesmo diâmetro e possuíam funções astronômicas.  Assim, o que está apontando em direção ao norte servia para observar os equinócios (momentos que marcam o início da primavera ou do outono)  e o outro espelho para detectar o solstício de inverno.

Sala dos Espelhos Astronômicos, os "Espejos de Água" de Machu Picchu.
 


O sol refletindo no espelho d´água.

O setor agrícola inclui a "Cabana do Guardião", a "Rocha dos Sacrifícios" (ou "Rocha Funerária") e os terrenos agrícolas.  

A Cabana do Guardião, como o próprio nome entrega, era um lugar de vigilância da cidade. Por ser o ponto mais alto, era possível que o guardião vigiasse todos os pontos de acesso à cidade. O bom de se observar a cabana é que ela é uma ideia perfeita de como eram as casas do complexo de Machu Picchu. Ou seja, como era a cidade sagrada se não estivesse só em ruínas como hoje.

A "Cabana do Guardião".


A "Rocha dos Sacrifícios" ou "Rocha Funerária" , perto da "Cabana", era um altar para sacrifícios, inclusive de animais como lhamas. Bingham achava que era, na verdade, uma laje mortuária, na qual os imperadores eram colocados para serem mumificados.

Por sua vez, os terrenos agrícolas compõem o visual da cidade sagrada de maneira belíssima. Desenhados para aclimatar espécies tropicais em grandes altitudes e também para suportar chuvas intensas, os terrenos agrícolas serviam para o cultivo de coca, quinua, batatas, plantas medicinais, entre outras.





É possível subir na "Montanha Jovem" ("Huayana Picchu"), mas é bom que se diga que se trata de uma caminhada "quase vertical de tirar o fôlego em mais de um sentido", nas palavras de Patrícia Schultz, do famoso guia "1000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer".  Pelo que já vi nas fotos tiradas de lá, não acho que vale a pena - há ângulos melhores para se apreciar a cidade perdida dos incas. Mas há quem goste. Não é, portanto, aconselhável para pessoas com dificuldades de locomoção em geral.



Aqui inicia-se a subida para Huayna Picchu, a Montanha Jovem.
Há ainda duas outras caminhadas no sítio arqueológico: a que vai para a Ponte Inca, que demora uma hora (ida e volta); e a que vai a Inti Punku, com muitos lugares usados para cerimônias incas e de onde é possível observar outra perspectiva da cidade perdida (dura duas horas).

Enfim, a cidade sagrada e perdida dos incas, patrimônio mundial pela UNESCO desde 1983, é uma dos sítios arqueológicos mais impressionantes do mundo. Sem dúvida, um lugar para se conhecer antes de morrer.

domingo, 10 de julho de 2016

O IMPRESSIONANTE IMPÉRIO INCA - UMA VIAGEM AO PERU!

Poucos países tem uma herança cultural tão significativa quanto o Peru. São várias as civilizações que fizeram desse país um verdadeiro caldeirão cultural. Civilizações que fizeram com que o povo atual ainda mantenha uma rica e preciosa forma de viver com base nas tradições.  Pela ordem cronológica (da civilização mais antiga para a mais recente), temos: Caral, Chavin, Paracas, Mochica, Nazca, Wari, Chimu/Lambayeque e Incas. 

De todas as civilizações que influenciaram o que é o Peru atual, destaca-se a inca. 

A base da civilização inca foi Cusco (naquele tempo se chamava Qosqo).  A cidade, hoje a sétima mais populosa do Peru, localiza-se a sudeste do "Vale Sagrado dos Incas". Em quéchua, a língua de treze dos trinta e um milhões de habitantes do Peru, o nome da cidade significa "Umbigo do Mundo". Nada mais apropriado para uma cidade que foi e continua sendo tão importante em termos estratégicos, econômicos e culturais.. 

Cusco, a capital do império inca. Foto: Carlos HB/EP

Aqui vale trazer uma curiosidade: embora falemos em "incas", "império inca" e "civilização inca", a palavra "inca" não era nos primórdios designativa do povo, mas tão somente dos imperadores. A esses líderes, chamados "filhos do sol", é que era dado o título de "inca". Mas, é importante dizer:  falar em império inca nos dias atuais, como uma palavra que designa todo aquele povo, está correto. E adotaremos no blog o consagrado nome.

A divisão social dessa magnífica civilização era assim: realeza (Inka, Qoya - esposa do inka; Panaka - família real); nobreza (elite cusquena ou nobres de sangue; nobres de privilégio); e o povo (tributarios, hatunruna e yanakunas ou servos da realeza).

in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Maria Negron Ribeiro

Rei Inka e Rainha Qoya. Vestimentas. in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de S. Romero
Vestimenta do homem. in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Romero.
Vestimenta da mulher. in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Romero.
A civilização inca, historicamente falando (é preciso dizer que existiram reis lendários, em um período que começa em 1.200 d.C), desenvolveu-se de 1438 d.C (ano do primeiro rei histórico, Pachacutec) a 1.532 d.C (ano da conquista espanhola). É a fase de expansão do império inca e aqui adotada como o período de esplendor e de independência da civilização inca.  A origem desse povo é contada, em grande parte, por mitos e lendas.  Muitos dos imperadores incas, na verdade, são lendas. Mas dois deles merecem uma menção especial: Pachacutec (o nono e o primeiro rei histórico) e Atahualpa (o décimo-terceiro, considerando os reis lendários e último dos reis históricos). Esses foram reais (no sentido de existência verdadeira) e deixaram marcas profundas com sua liderança. 
in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Maria Negron Ribeiro

Merecem destaque em nossa exposição do soberbo império pré-colombiano a organização social e administrativa do Império Inca.

A organização política do império andino tinha como objetivo o bom funcionamento do Estado e melhorar a produção de alimentos.

A máxima autoridade política, conforme já falamos anteriormente, era o Inka, cujo centro de suas operações era Cusco. A ele competia dar segurança e bem-estar ao povo, enquanto o povo, em reciprocidade, dava tabalho, obediência e fidelidade ao "Filho do Sol".

Havia o Auki, ou príncipe herdeiro, cuja função era demonstrar sua habilidade para ser o futuro governante.

O Conselho Imperial, ou Tawantinsuyo Kamachiq, era a assessoria mais importante do Inka.

O Representante do Inka, ou Apunchinq, por sua vez, tinha atribuições política e militares e era uma espécie de governador de determinada região.

O Supervisor, ou Toqrikoq ou Tukuy Rikuq, era responsável por aspectos civis e públicos, como celebrar matrimônios, recolher tributos, impor castigos e resolver conflitos.Cumpria as ordenanças de determinada região, em conjunto com o Apuenchinq.

E, por fim, o Chefe, ou Kuraka, responsável por um grupo étnico ou Ayllu. Tinha a obrigação de organizar o povo e servir de nexo entre este e o Estado.

Ou seja, uma organização política bastante interessante e evoluída, assim discriminada:

Estrutura organizacional inca. in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Romero.

A organização administrativa, por sua vez, era bastante curiosa. Trata-se da administração de base decimal. Nessa interessante disposição, os homens ou hatun runas eram divididos em grupos de dez, cem, mil e dez mil chefes de família. O chefe de família era chamado de Pureq.

A educação formal, entre os incas, era somente para membros da elite (akllawasi, para as mulheres e a Yachaywasi, para os varões).  Para o povo, havia a educação prática.

No mundo pré-colombiano, vale dizer, as mulheres tinha papel de protagonistas e eram fundamentais em todos os momentos da cultura andina. A presença era muito necessária e complementar ao rol dos homens (princípio de yanantin). Nesse sentido, participavam ativamente do governo e tinham muitos postos hierárquicos.

Os incas não tinham textos escritos. Mas a comunicação era feita com outros elementos, que continham variadas informações como o ábaco, os khipus, os tokapus e as qhelqas.

O idioma oficial era o quechua, ou runa simi.

Geograficamente, é importante destacar, o império inca alcançou notável tamanho: corresponde ao que é hoje parte dos seguintes países, de cima para baixo no mapa: Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina. Seis países. Uma extensão territorial de 1.800.000 quilômetros quadrados, o que seria 35 por cento maior que o território peruano atual (que é o 19º maior do mundo hoje).

O império dos incas em amarelo. América do Sul. Foto: Carlos HB/EP

O sistema econômico inca era baseado fortemente na reciprocidade (no sentido de cooperação) e na redistribuição dos excedentes de alimentos. O sistema tinha um viés parecido com o socialismo, com a sua característica mais básica, o planejamento centralizado pelo Estado.

O trabalho era considerado uma obrigação. O ócio era punido como crime pelo Estado Inca. Havia três formas de trabalho: ayni (ajuda entre membros os membros de uma comunidade familiar);  mink´a (trabalho em benefício comum da comunidade); e mita (trabalho obrigatório em benefício do Estado).  

A civilização inca, vale dizer, foi, por excelência, uma sociedade agrária. A topografia irregular, as ameaças da natureza e os terrenos escassos para cultivo obrigaram os incas a desenvolverem diversos recursos tecnológicos, tais como: "pata pata" (construções multifuncionnais, terras de cultivos em várias camadas); hoyas (escavações feitas em zonas áridas, até alcançar lugares húmidos do subsolo para cultivos);  e o waru waru (sistema de manejo do solo e da água, em planícies pantanosas e inundadas, que cria um efeito térmico que protege os cultivos de geadas, além de otimizar a qualidade do solo). As ilustrações abaixo, extraídas do excelente livro "Presentando el Perú y Machupicchu", de Saydi Romero, mostram os detalhes dos cultivos:

O sistema agrícola "pata pata". in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de S.Romero.
 

Hoyas (acima) e Waru Waru (abaixo). in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de S.Romero.

Impressiona bastante também na cultura inca a engenharia e a arquitetura. Como seria possível carregar tantas pedras enormes em terrenos tão altos e difíceis? É a pergunta que todos que visitam as ruínas incas fazem. Foram construídos naquela época diversos caminhos, pontes, depósitos, armazéns nas montanhas (!), embarcações, templos e cidades.

As técnicas de construção eram impressionantes. O objetivo dos arquitetos e engenheiros incas era harmonizar as suas obras e a natureza, uma preocupação em uma época que não havia tantas questões ambientais afetando o nosso planeta. 

Como materiais de construção, os incas utlizaram basicamente pedras, sendo as mais comuns o granito, o basalto, o calcário, entre outras. Utilizam também terra (adobe), madeira e fibras vegetais.

Utilizando-se de pedras, o mais difícil era justamente o transporte delas. Em boa parte dos casos, utilizavam-se de força humana (vários homens dependendo do tamanho da pedra); em outros, utilizavam-se de carrinhos, construíam rampas, entre outros mecanismos.

As enormes pedras que os incas carregavam em seus sítios. Foto: Carlos HB/EP

Técnica de transporte de pedras dos incas. in: "Presentando el Perú y Machupicchu", ob.citada

 
in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de S.Romero.



in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de S.Romero.

Por fim, algumas curiosidades e fatos interessantes merecem nossa atenção. 

O primeiro deles, vale destacar, é a famosa "trilogia andina", que são os três animais sagrados dos Incas: a serpente (ou "amaru"); o puma; e o condor (ou "kuntur"). Segundo a visão andina, as pessoas deveriam possuir as características de cada um desses animais. 

A serpente, símbolo da água, era representada com uma ou duas cabeças. Identifica-se com um raio e ela que anuncia a chegada da água ("Yakumama").  

O puma, por sua vez, representa a fortaleza, o poder, o valor, o sigilo e a destreza. A cidade de Cusco tem a forma de um puma. 


Cusco, a cidade em forma de puma. in: "Presentando el Perú y Machupicchu", de S.Romero.

O condor, por fim, é uma divindade que representa sensatez e sabedoria, sendo também o mensageiro dos deuses.

A folha de coca, ainda hoje muito utilizada em países andinos como o Peru, era consumida, durante o império inca, somente pela elite. 

Outra informação de interesse é que o território inca foi dividido em quatro "suyos" (regiões), cujo nome geral era "Tawantinsuyo", com um puro conceito de demarcação e cujo centro era Cusco. São quatro os suyos: Qollasuyo, Antisuyo, Kuntisuyo e Chinchaysuyo.

A "Festa do Sol", ou "Inty Raimi", era a principal comemoração inca, em homenagem ao rei sol.  Celebrada no solstício de inverno (21 de junho), consistia no sacrífico da lhama, o acendimento do fogo sagrado e a consagração de diferentes oferendas. Hoje ainda se celebra tal festa em Cusco, embora seja em data diferente: 24 de junho. O local de celebração é Saqsaywaman, a "real casa do sol", nas proximidades de Cusco.

E, por fim, importante trazer à baila algumas causas da derrocada do império inca frente aos espanhóis: disputa do trono entre Atawallpa e Waskar, o que gerou instabilidade da qual se aproveitaram os espanhóis; grupos étnicos que foram dominados pelos incas aproveitaram a chegada dos espanhóis e se uniram a eles; a propagação de doenças que afetou grande parte da população andina; e a experiência dos conquistadores em combates armados.
 
A visita ao que restou do império inca, nos dias atuais, para ser completa, deve abranger o Vale Sagrado (e suas estrelas Ollantaytambo, Pisac, Moray e Salinas de Maras) e Machu Picchu (um sítio arqueológico espetacular). Machu Picchu, aliás, é patrimônio mundial pela UNESCO desde 1983, constituindo-se na mais preservada ruína inca que se tem notícia. E está preservada justamente pelo fato de que os espanhóis não estiveram por ali. Posts detalhados mostrarão cada um destes maravilhosos locais.

A espetacular cidade inca Machu Picchu, no Peru.


Machu Picchu (pico), ao fundo, e as famosas construções de pedra dos incas.

Enfim, o império inca, que dominou vasta região da América do Sul nos séculos XV e XVI, é uma das mais fascinantes culturas históricas do mundo. Uma cultura que influenciou e ainda influencia uma parcela significativa da população peruana, sobretudo em Cusco. Uma história extraordinária.